Neste dia em que comemoramos a conclusão da peregrinação terrena do nosso primeiro Bispo, D. Manuel Martins e a sua partida para os braços do Pai do Céu, no início do novo ano pastoral 2019-2020, gostaria de dirigir a toda a Diocese, mas especialmente aos jovens, uma palavra amiga de chamamento para a vida e a missão da nossa Igreja, baseada nos principais desafios e iniciativas que nos movem. De entre estes, destaco particularmente os seguintes, que estarão em evidência no ano pastoral que agora tem início:

1) Triénio dedicado aos jovens, com a Jornada Mundial da Juventude, Lisboa 2022 no horizonte

Em primeiro lugar, recordo que a nossa Igreja de Setúbal se encontra num triénio especialmente dedicado aos jovens, que nos conduzirá às portas da Jornada Mundial da Juventude, em 2022, em Portugal (JMJ 2022). Neste percurso, por proposta do Papa Francisco, guia-nos a figura de Maria, Mãe e modelo da Igreja, na visita à sua prima Isabel: “Maria levantou-se e pôs-se apressadamente a caminho, para as montanhas, para uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc 1,39s).

Neste primeiro ano de preparação para a JMJ 2022, deixamo-nos interpelar pela atitude de Maria, como resposta ao anúncio do anjo que lhe traz a Palavra de Deus: “levantou-se e pôs-se apressadamente a caminho“. A palavra que Deus semeia no nosso coração, faz-nos levantar do nosso torpor e acomodamento, dos sofás do nosso egoísmo, da indecisão das nossas dúvidas e temores, da fossa das nossas frustrações e depressões. Este novo ano pastoral desafia-nos a levantar e a caminhar; a abrirmo-nos à comunidade, à Igreja, ao mundo, com vontade de partilhar a mensagem que recebemos e os dons de que dispomos. No exemplo de Maria, Deus chama-nos a caminhar juntos, como Igreja, em missão.

Este percurso dirige-se particularmente aos jovens. O Departamento da Juventude da Diocese de Setúbal está em evolução, para dar resposta aos desafios da nossa diocese, tendo em conta a JMJ 2022. Neste ano, continuarão as visitas pastorais às paróquias, nas Vigararias de Barreiro/Moita e Montijo. Potenciar-se-á a articulação e dinamização dos Conselhos de Jovens das Paróquias e Vigararias já visitadas, e a proposta a toda a Diocese da caminhada espiritual de preparação para a JMJ 2022. A todos/as se dirige o apelo “Jovem, levanta-te e partilha-te!“. Partilha o teu tempo, a tua vida, a tua fé. Levanta-te e aposta, com atitude nova, numa Igreja viva, participativa, missionária.

2) Fundação Dom Manuel Martins

Há precisamente um ano, foi constituída uma Comissão para elaborar os estatutos e liderar a constituição da Fundação Dom Manuel Martins (FDMM), dedicada a preservar e desenvolver a memória do nosso primeiro Bispo, como fermento de uma Igreja em diálogo com o mundo onde se encontra, movida pelo Espírito que a envia a anunciar a Boa Nova, a começar por aqueles que mais precisam.

O projeto de Estatutos desta futura Fundação está já a ser analisado pelos órgãos competentes da Diocese e de pessoas para tal qualificadas. Neste ano pastoral deverão ser dados os passos fundamentais para a criação e a entrada em funcionamento desta Fundação, que pretende ser um ponto de encontro e base de anúncio da mensagem cristã com a cultura hodierna. A partir da vida da Igreja, a Fundação pretende ser um espaço de formação para a nossa Diocese e fórum de encontro de saberes entre o Evangelho e a cultura, espaço de colaboração na emergência de uma sociedade humanista e solidária, aberta à universalidade e aos horizontes de vida que o Evangelho nos propõe, na construção da casa comum da humanidade.

3) Academia Fé e Cultura

Um dos pilares fundamentais da Fundação Dom Manuel Martins será a proposta de formação qualificada para a nossa Igreja e para todos os que desejarem conhecer e aprofundar a mensagem cristã. Desse modo, dando continuidade à “Escola da Fé”, que deu tão bons frutos na nossa Diocese, está a ser constituída, no seio da FDMM, a “Academia Fé e Cultura“, com o objetivo de oferecer cursos de aprofundamento e competência nas várias áreas da Bíblia, Teologia e visão cristã do homem e da sociedade.

Os primeiros cursos deste género deverão ter início já neste ano pastoral, no início de 2020. Estão a ser preparados em cooperação com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, valendo-se do contributo dos atuais meios de comunicação e formação. Espero que este seja um lugar importante de formação cristã para a nossa Igreja, particularmente para os líderes de ministérios e movimentos nas nossas comunidades, de abertura e cruzamento da fé com os saberes e desafios da sociedade onde nos inserimos, numa atitude de anúncio credível do Evangelho.

4) Organização administrativa da Igreja Diocesana

Há mais de um ano que estão a ser revistos os estatutos de administração e gestão da Diocese e de todas as suas estruturas. Pretende-se que o verdadeiro sentido evangélico seja a norma do nosso administrar a casa de Deus que é a Igreja, através de um serviço dedicado e competente, honesto e transparente. Um serviço que dirige sem “imperar”, é responsável e promove a responsabilidade dos órgãos da comunidade, é expressão do Senhor Jesus que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão” (Mc 10,45). É esse o objetivo do novo projeto integrado das normas de administração na Diocese.

Nos próximos meses, os novos estatutos serão analisados em diversas sedes e deverão ser gradualmente aplicados ao longo do ano de 2020, na sede da Diocese, nas paróquias e nas outras instituições diocesanas. Também esta é uma dimensão importante do “levantar-se e pôr-se a caminho“, como comunidade participativa, através da colaboração de todos no serviço e no contributo económico, de modo que não faltem à Igreja as pessoas e os meios necessários à vida da comunidade e à sua missão.

5) Departamento Sociocaritativo da Diocese de Setúbal (DSCS)

O cuidado dos mais débeis e a atenção aos problemas da pobreza e da solidão foram sempre uma manifestação credível do Evangelho, que faz resumir toda a Lei no amor de Deus e do próximo. A nossa Diocese tem uma nobre tradição neste campo, tendo-se preocupado, desde os seus inícios, com os que mais precisam, através da caridade organizada nas nossas comunidades e em instituições generosamente criadas para tal fim.

Hoje, a prestação desse serviço de caridade social reveste-se de crescente complexidade e responsabilidade, carecendo de maior competência técnica e de hábil gestão, aliadas à boa-vontade e ao amor concreto para com os mais frágeis. É também claro que as nossas instituições terão muita dificuldade em subsistir e prestar esse serviço, se não forem capazes de se articular em redes de solidariedade, competência e organização.

Por isso se criou o “Departamento Sociocaritativo da Diocese de Setúbal“, que está a dar os primeiros passos na sua função de conhecer, articular e coordenar os esforços e projetos dos nossos Centros Sociais Paroquiais e das instituições e iniciativas solidárias das nossas paróquias. Esta é também uma iniciativa que se irá desenvolver e afirmar neste ano pastoral e que deve merecer a boa-vontade e a colaboração de todos, não para centralizar, mas para fazer com que a atitude do bom samaritano chegue a todos os que dela precisam e ninguém fique abandonado à margem da estrada da vida.

6) Formação de Diáconos para a nossa Igreja

A atitude de serviço é o fundamento da missão dos diáconos na Igreja, pois a palavra “diácono“, de origem grega, significa simplesmente “servo“. Eles são ordenados para estarem ao serviço das comunidades e da sua missão, sobretudo no anúncio do Evangelho e no cuidado dos pobres.

Como já tem sido anunciado, iniciaremos, neste ano pastoral, a constituição de um novo grupo de diáconos na nossa Igreja de Setúbal. Em cada paróquia, o pároco é o primeiro responsável para identificar e propor homens que possam vir a servir as comunidades como Diáconos, consultando os responsáveis das comunidades sobre a idoneidade deles. Depois, seguir-se-á um período de discernimento inicial com os candidatos, até ao final deste ano pastoral, seguindo-se um itinerário de maturação desta decisão e de preparação para o exercício desse ministério.

7) Atitude missionária

Estes são alguns dos pontos que queremos ter bem presentes ao longo deste ano pastoral, na oração pessoal e familiar, nas celebrações das nossas comunidades e na efetiva colaboração com as iniciativas propostas. Trata-se sempre de assumir a atitude de Maria, nossa mãe e modelo da Igreja: escutar com atenção a voz de Deus e meditá-la no nosso coração em atitude de disponibilidade orante, perguntando o que é que Ele pretende de nós (de mim, concretamente); de deixar-se guiar pelo Espírito do Senhor que nos faz “levantar e partir” para a missão que Ele nos confia, na família, na paróquia, na Diocese ou em qualquer parte do mundo onde Ele nos envie.

A nossa Igreja tem necessidade desta atitude missionária. É nesse espírito que nos dispomos também a começar este novo ano pastoral, como um convite e uma oportunidade que o Senhor nos oferece para darmos nova vida e juventude à nossa Igreja e para levarmos a sua mensagem de vida e de esperança aonde quer que Ele nos envie.

Como Maria, levantemo-nos, pois, e ponhamo-nos a caminho da missão a que o Senhor, Bom Pastor, nos convida!

+ José Ornelas Carvalho
Bispo de Setúbal