O tema que está a guiar o nosso caminho diocesano para a Jornada Mundial da Juventude de 2022 intitula-se: “Levanta-te e partilha-te”. Este apelo inspira-se, por indicação do Papa Francisco, na atitude de Maria, depois da anunciação do anjo: “Maria levantou-se e dirigiu-se apressadamente para a montanha”, ao encontro da sua prima Isabel (Lc 1,39). O convite a levantar-se e a partilhar, que está a ser desenvolvido com os nossos jovens, resume também aquilo que se pretende com a caminhada da Quaresma.

Levanta-te!

A primeira atitude de Quaresma pode ser admiravelmente expressa pela mudança de atitude do filho pródigo que, tendo abandonado a casa paterna e vendo-se privado da sua dignidade, apoio e meios, recorda o amor do pai e diz: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai e dizer-lhe: pequei contra o céu e contra ti.” (Lc 15,18-19).

Recordar o amor do Pai do céu é o princípio deste percurso quaresmal. Ele realiza-se na escuta da Palavra de Deus, na memória do caminho que já fizemos com Ele, da participação na família e na Igreja. À luz desta escuta e desta memória é que tem lugar o desejo e a decisão de se levantar. Na nossa vida, há certamente sonhos, orientações, gestos, atitudes e modos de estar que nos afastaram do nosso centro coerente de vida, criaram distância com quem nos está próximo e com a casa do Pai. É isso que chamamos pecado: um fechamento em nós mesmos, uma alienação em relação à autenticidade de vida (a casa do Pai), um distanciamento da família (aqueles com quem fazemos a viagem da vida), uma ilusão de felicidade que acaba em frustração e miséria, para nós e para quem nos rodeia.

Escutar e recordar, significa dar atenção a Deus e à voz do seu Espírito que fala no nosso coração; dar ouvidos aos apelos e dificuldades dos que nos rodeiam, em casa, na comunidade, na escola, no trabalho, no mundo. Escutar é, de modo especial, sentir a fome das multidões, a solidão dos idosos, a miséria dos pobres e desalojados… escutar e sentir nossos esses gritos, sonhos e dores.

Levantar-se, significa reagir, desalienar-se, sair do conforto e da rotina egoísta de si próprio. Sentir que o mundo em que vivemos depende também de nós e que pode ser melhor, se todos se levantarem para contribuir ativamente para a mudança. A atitude de Maria é modelo do nosso agir: em consequência do encontro com Deus, a sua agenda muda, a palavra escutada traz novas rotas e inicia novos caminhos: “Levantou-se e partiu”. A nossa oração é estéril se não levar a novas atitudes, se não imprimir nova direção à vida, se não nos fizer levantar com novas atitudes concretas de vida.

Regressa!

Na linguagem bíblica de Israel, o verbo “regressar, voltar” significa também “converter-se”. A conversão que nos pede a Quaresma é mesmo isso: um caminho para regressar ao amor do Pai, que sempre está à nossa espera, depois de cada ausência e desencaminhamento. É reatar os laços que se romperam na família, na Igreja, no trabalho, na escola, no mundo. Regressar é reconciliar os desavindos e lançar novas pontes, na justiça, na colaboração e na paz.

Mas é, antes de mais, voltar a si, ao próprio coração: é desalienar-se dos sonhos de felicidade ilusória e destruidora, desatar os laços do egoísmo e da preguiça, do orgulho e da ganância, do ódio e da vingança, que não nos deixam livres para buscar o que é bem, para ir ao encontro dos outros, para ultrapassar barreiras e preconceitos que excluem e matam. O caminho para esse regresso/conversão é descrito pelo profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados… Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo. Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração humano” (Ez 36,24-28). O regressar de quaresma é regressar ao coração: encontrar o espaço de encontro com o Coração de Jesus o Filho de Deus, mestre e modelo dos peregrinos para a casa do Pai, mas sobretudo seguir os seus passos que levam à transformação própria e do mundo que nos rodeia.

 

Partilha(-te)!

Partilhar representa o resultado da conversão quaresmal. Ouvir a Palavra, regressar à autenticidade de si próprio, da família, da comunidade, quebra o ciclo estéril do egoísmo e abre-nos à renovação do relacionamento com aqueles que nos rodeiam. Partilhar assume a escuta do outro à luz de Deus, o reencontro e a reconciliação, o partilhar a sua situação e partilhar-se em caminhos de fraternidade, solidariedade e amor.

No Evangelho, a partilha de Jesus começa pela compaixão para com a fome da multidão, que leva a multiplicar o pão partilhado por um menino, começando, assim o princípio de toda a partilha na família, na Igreja, na humanidade. A experiência orante das próprias carências e as daqueles que nos rodeiam, levam-nos a perceber que o pão e os dons que possuímos não são apenas “propriedade privada”, mas se destinam a saciar a fome daqueles que nos rodeiam. Não há verdadeiro compromisso religioso sem esse partilhar o pão que mata a fome à mesa; a proximidade que aconchega os solitários; a educação para as crianças sem futuro; a esperança para os que são vítimas do sofrimento, do desconforto e do abandono; a fé para aqueles que não chegaram ainda a perceber o amor e a vida do Pai do céu.

A lógica do partilhar leva a partilhar-se. Foi assim que fez Jesus. Multiplicou o pão para a multidão e deu-se como pão e alimento de sentido, de luz, de vida que não acaba. Com aqueles que amamos, é isso que fazemos: não damos simplesmente coisas, mas partilhamo-nos, em atenção, em tempo, em carilho, em apoio, em amor. E, como cada um se partilha a partir daquilo que é, Jesus partilhou connosco a vida para sempre e o amor total do Pai do céu, no seu Espírito. Por isso, quanto mais acolhermos o dom por excelência de Deus, tanto mais teremos para partilhar dons excelentes com aqueles com quem convivemos. Acabaremos, também nós, por libertar-nos de nós mesmos, para fazer da vida um dom multiplicado e sem limites, para aqueles que precisam.

 

Partilha-te com a nossa Igreja de Setúbal

Como sinal desta partilha comum, a nível da nossa Igreja de Setúbal, foram fixados dois objetivos, um a nível interno da Diocese e outro, alargando o olhar às necessidades de Igreja e do mundo.

O primeiro é um gesto fraterno e solidário, para com os mais necessitados nesta nossa península de Setúbal. Das ofertas recebidas em cada comunidade, metade será para o Fundo Diocesano de Emergência Social, destinado a socorrer carências urgentes de famílias da nossa Diocese.

A outra metade será para os cerca de 3.200 meninos e meninas da Escola João XXIII da Diocese da Beira – Moçambique. Os edifícios desta escola foram destruídos pelo ciclone Idai do ano passado e ainda estão sem teto. Vamos contribuir para dar um teto para estudar a estas crianças.

Desejo a todos um bom caminho de Quaresma, crescendo em liberdade e solidariedade, seguindo os passos do Senhor Jesus e de Maria, escutando a sua voz naqueles que precisam e partilhando com eles os dons que recebemos do Pai do céu.

 

+ José Ornelas Carvalho

Bispo de Setúbal