Estimados irmãos e irmãs da Diocese de Setúbal,

Estamos a preparar-nos para as celebrações fundamentais do ano, na vida da Igreja, que ocorrem na Semana Santa, entre o Domingo de Ramos (a 5 de abril) e o Domingo de Páscoa (a 12 de abril). É a celebração do mistério Pascal, desde a Entrada de Jesus em Jerusalém, no próximo Domingo; a Última Ceia de Jesus com os discípulos, na quinta-feira; a Condenação e a Morte de Jesus, na sexta-feira; a Vigília Pascal, no sábado à noite; e a Eucaristia da Ressurreição no Domingo de Páscoa.

Este ano, as festividades pascais têm lugar num ambiente de grande contenção e preocupação, devido à pandemia que assola o mundo inteiro e está a condicionar dramaticamente toda a vida, incluindo as deslocações e relações sociais. O estado de emergência, que acaba de ser renovado no nosso país, com medidas necessárias ao bem de todos, leva-nos a alterar também o modo habitual de celebrar a Páscoa.

Estes condicionalismos não nos impedem, contudo, de celebrar o mistério pascal do Senhor, fundamento da nossa fé, da nossa força e da nossa esperança. Deus não está ausente dos problemas da humanidade. Pelo contrário, o mistério pascal de Jesus é o memorial da Sua presença, nos dramas mais pungentes de cada pessoa e da história. A Sua morte na cruz assume todas as dores e angústias da humanidade, abrindo, com a coragem do amor e da confiança no Pai do céu, o caminho para um mundo mais justo, fraterno e em paz, aberto à totalidade da vida.

É com essas mesmas disposições que queremos celebrar a Páscoa. Com Jesus unimo-nos ao sofrimento dos nossos irmãos atingidos pela pandemia e estamos solidários com todos os que, na primeira linha, cuidam dos doentes com risco da própria vida. Mas disponibilizamo-nos também a colaborar para aliviar o sofrimento e a penúria de quem precisa, esforçando-nos para que esta crise seja superada e possa surgir um mundo mais justo, fraterno e responsável.

Este ano, a celebração da Páscoa não poderá contar com a habitual presença física dos membros das nossas paróquias e outras comunidades nas igrejas. Teremos a oportunidade de celebrá-la nas nossas famílias, unindo-nos também às celebrações que serão transmitidas através redes sociais, a partir das nossas paróquias, da Diocese e dos canais de televisão.

No tempo de Jesus, a celebração pascal situava-se na refeição pascal de cada família. Foi no decorrer dessa refeição com os discípulos que Ele antecipou o valor da sua morte redentora e deixou à Igreja o sacramento da Eucaristia, que o perpetua nas nossas celebrações. A celebração na Sé Diocesana e nas paróquias, com um número restrito de pessoas, será o sinal da união de todas as nossas famílias, na grande família que é a Igreja. Estaremos unidos, como discípulos de Jesus e filhos de Deus, na comunhão do seu Espírito, pois o seu amor vence todas as distâncias. Como no cenáculo com os seus discípulos, Jesus estará presente em cada família que se reúne para celebrar a memória da sua morte e ressurreição.

Por isso, complementando o que já foi transmitido aos párocos com mais pormenor, aqui dou algumas indicações para toda a comunidade diocesana, no que diz respeito às celebrações e especiais atenções, enquanto durar o atual estado de emergência nacional.

  1. As celebrações da semana santa e outras, até que dure o estado de emergência, devem ter a presença de apenas um número reduzido pessoas, indicadas pelo pároco, e devidamente instruídas quanto à distância e ao comportamento profilático adequados. Na medida das possibilidades, procure-se que estas celebrações sejam transmitidas através dos meios telemáticos disponíveis. Durante as celebrações, a porta da Igreja deverá permanecer fechada, para que não se verifique aglomeração de pessoas.
  1. Cada família procure usufruir deste tempo para criar um ambiente celebrativo próprio, baseado na leitura e partilha da Palavra de Deus e na oração, em comunhão com a Paróquia e a Diocese, através das transmissões disponíveis nos canais televisivos e nas redes sociais. Mas é sobretudo importante que esta experiência de provação possa contribuir para criar em cada família o hábito de celebrar a própria fé, fonte de reconciliação e amor, que as liga à comunhão com a família da Paróquia e da Igreja.
  1. As igrejas paroquiais podem abrir algumas horas por dia para a oração pessoal, desde que seja possível garantir as adequadas medidas de vigilância, contenção e desinfeção dos espaços. O número de pessoas contemporaneamente presentes nas igrejas será sempre muito reduzido, mesmo em igrejas espaçosas, de modo a garantir o distanciamento requerido pelas normas vigentes.
  1. Os funerais realizem-se com a participação de apenas os familiares mais próximos e em número reduzido, observando as prescrições das autoridades. Quando se faz a “encomendação”, esta tenha lugar apenas nos cemitérios, ou apenas à saída da capela mortuária. Não se realizem “velórios” que levem à aglomeração de pessoas nestas capelas.
  1. Tenha-se especial atenção aos serviços da caridade, tendo especial cuidado com as pessoas mais vulneráveis, em termos de saúde ou de carência económica. A ação caritativa das nossas paróquias é particularmente importante neste momento a fim de que ninguém seja deixado abandonado nas dificuldades. Os nossos jovens estejam particularmente disponíveis para este dever de solidária caridade, seja nas organizações da paróquia, seja nas organizações locais. Procure-se sempre coordenar esta ação com as autoridades civis, para garantir a segurança e proteção dos voluntários e o bom serviço a quem precisa.
  1. Estas orientações sejam, o mais possível, dialogadas com as autoridades locais, como forma de evitar desentendimentos e de contribuir para a colaboração de todos, em ordem à superação da pandemia.

Que este tempo de crise que estamos a viver possa conhecer a luz e a presença regeneradora do Senhor que assumiu as nossa dores e a nossa morte e, com a sua ressurreição, nos abriu à segura esperança no poder e no amor do Pai do céu, dando-nos igualmente a disponibilidade para colaborar na superação destas dificuldades com a força de Deus e as nossas capacidades.

Desde já, desejo a todos a esperança, a alegria da Páscoa, pedindo para todos a presença transformadora do Senhor ressuscitado, que nos fará superar também esta crise.

+ José Ornelas Carvalho

Bispo de Setúbal

ANEXO: Celebrações da Semana Santa, na Sé de Setúbal

Com base nas recomendações já publicadas, vamos procurar celebrar a Semana Santa adaptando as celebrações à emergência que vivemos, sempre no respeito e em diálogo com as autoridades e o evoluir da situação. As linhas seguintes indicam as celebrações a que presidirá o Bispo, com transmissão pelo Facebook da Diocese. Cada paróquia fará a sua programação, atendendo aos critérios já referidos e às adaptações provenientes da Santa Sé, da Conferência Episcopal Portuguesa e das sugestões aqui sugeridas.

No Domingo de Ramos

  • Bispo presidirá à Eucaristia às 10:00h, com transmissão.
  • Nas Paróquias: celebre-se a liturgia própria, sem procissão, podendo o presidente abençoar os ramos junto ao altar e ler o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém.
  • Pede-se às famílias que sigam uma transmissão da Eucaristia e que preparem ramos apropriados, com verdura e flores, conservando-os, depois, em casa como memória da morte e ressurreição do Senhor.

Quinta Feira Santa

  • Adia-se a Missa Crismal para uma ocasião conveniente, com data a anunciar.
  • Bispo preside, na Sé, à Eucaristia da Ceia do Senhor às 18:00h, com transmissão.
  • As paróquias são chamadas a celebrar esta Eucaristia, com as cautelas e limitações já referidas, e a organizar, na medida do possível, a sua transmissão.
  • Sugere-se às famílias que preparem uma ceia festiva, recordando a Ceia do Senhor com os seus discípulos, seguindo um guião com um momento de leitura e oração que será preparado pela Diocese, ou com outro julgado conveniente.

Sexta-Feira Santa

  • Bispo preside à liturgia própria, na Sé, às 15:00h, com transmissão.
  • Nas paróquias, opte-se pela celebração da Paixão do Senhor e adoração da Cruz e/ou pela via sacra, ao fim do dia. Na liturgia, junte-se às 10 intenções da oração universal uma outra que mencione os tempos de tribulação que vivemos, os que sofrem pelo vírus, os profissionais que assistem os doentes e as famílias enlutadas.
  • Nas famílias, observe-se o jejum, segundo a idade e a condição de cada um, procurando acompanhar uma transmissão da liturgia e/ou ler a narração da paixão no Evangelho de S. João.

Sábado Santo – Vigília Pascal

  • Bispo preside à liturgia própria desta noite, na Sé, às 21:00h, com transmissão.
  • Nas paróquias procure-se também celebrar, com a necessária contenção, esta liturgia de altíssimo significado, naquela que é a “mãe de todas as noites”.
  • Nas famílias sugere-se que se dê significado ao símbolo da luz, acendendo velas na mesa, quando, na igreja, se acenderem as velas na celebração e usando, se possível, as velas do batismo, na renovação das promessas do batismais. No final da celebração, sobretudo quando houver crianças, e segundo as possibilidades e tradições, é bom celebrar com um bolo ou doces a festa da ressurreição do Senhor e a esperança de superação da presente crise.

Domingo da Ressurreição

  • Bispo preside à Eucaristia da ressurreição, na Sé, às 10:00h, com transmissão.
  • Nas paróquias,celebre-se a Eucaristia festiva da Eucaristia da ressurreição, com os condicionalismos já mencionados. Onde houver sinos, façam-nos tocar festivamente ao meio dia, em todas as nossas paróquias e outras igrejas. Sugere-se ainda que, na conclusão da Eucaristia, se abram as portas da Igreja e o celebrante saia precedido da cruz adornada de flores e dê a bênção final solene da porta da Igreja, a toda a paróquia e à sua população.
  • Às famílias sugere-se que celebrem com alegria e esperança este dia, colocando colchas ou ramos floridos nas janelas, a anunciar a ressurreição do Senhor.

 

+ José Ornelas Carvalho

Bispo de Setúbal