1. Regressar à comunidade e à partilha do Pão

Estamos a iniciar um novo ano pastoral, ainda a braços com a pandemia que, há mais de seis meses, condiciona toda a vida da sociedade, incluindo as nossas famílias e a vida da Igreja. Segundo as previsões, esta situação está para continuar, sem que haja uma perspetiva fiável sobre a superação da crise. Certamente que as condições previstas para este ano, a nível das nossas famílias, da escola, do trabalho e da vida da Igreja constituem um grande desafio à nossa fé e à nossa capacidade de encontrar juntos formas de superar as dificuldades.

Neste contexto, recordemos que, enviando os seus discípulos pelo mundo inteiro, Jesus não prometeu uma jornada fácil nem isenta de perigos, de esforço e de sofrimento, mas o que lhes garantiu foi que haveria de estar com eles ao longo da caminhada até aos confins do mundo e da história: “Eu estarei convosco, sempre, até ao fim dos tempos.”  (Mt 28,16-20). Esta presença torna-se real, na ação do Espírito que transforma pessoas, para atualizarem, em cada tempo e lugar, a missão salvadora de Jesus.

Foi assim também com os discípulos de Emaús que, no meio da sua tristeza e desânimo, experimentaram a presença do Senhor ressuscitado. Em plena crise, foram reconfirmados pela Palavra de Jesus, que caminhou com eles e pelo partir do pão, onde o reconheceram vivo e próximo. Assim robustecidos, voltaram para a comunidade, que tinham abandonado e contaram aquilo que os tinha feito superar o medo e o desânimo: “… contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.” (cf. Lc 24).

Durante a contenção, experimentámos sobretudo a necessidade de sermos mutuamente responsáveis pela saúde e a vida de todos, evitando contatos e impedindo a proliferação do vírus. Por isso, suspendemos as celebrações comunitárias e fomos criando formas novas de alimentar a fé e a vida, utilizando meios novos de comunicação e alimento da fé, na esperança de poder voltar à Eucaristia, em que Jesus parte para nós o Pão da Sua vida. É tempo de voltar à vida da comunidade. A participação presencial na Eucaristia, com os cuidados que utilizamos, há de ser a expressão da nossa fé responsável, confiante e ativa, para enfrentar este novo ano pastoral.

 

2. Retomar a vida das nossas comunidades

As celebrações eucarísticas

Participar na Eucaristia não é uma “devoção” isolada, mas resume e dinamiza toda a vida, missão e esperança de cada cristão e da Igreja. Por isso, devem envidar-se esforços e modalidades práticas que tornem possível, segura e atraente a participação na Eucaristia e nas atividades de cada comunidade ou paróquia, a partir da experiência adquirida nos meses passados. As normas de segurança perante a pandemia, emanadas pela Conferência Episcopal a 30 de maio último, continuam válidas e devem ser integralmente respeitadas, enquanto durar a presente crise. Por outro lado, é também necessário que cada um/uma de nós se assuma como membro ativo e participante na vida e na missão das nossas paróquias e de toda a Igreja. A pandemia requer prudência, mas igualmente empenhamento, criatividade responsável e disponibilidade de todos, para que possamos superar, juntos e reforçados, as dificuldades que a todos condiciona.

Apelo particularmente aos mais novos – crianças, adolescentes e jovens – cuja ausência se sente nas nossas celebrações: não tenham medo de participar na Eucaristia e na vida das nossas comunidades, nem se fechem no isolamento e comodidade. A vossa presença, as vossas sugestões e colaboração são fundamentais para criarmos uma Igreja renovada pela força do Espírito do Senhor e bem presente neste mundo, com os seu desafios e possibilidades.

Relembro a todos algumas indicações que foram já mencionadas e que podem assumir nova importância, na situação presente:

  1. a) O aumento das celebrações eucarísticas, sempre que tal se torne adequado para permitir a melhor participação de pessoas e grupos.
  2. b) A celebração da Eucaristia, em dias de semana, como forma de cumprir o preceito dominical, com grupos específicos de catequese, de jovens e movimentos.
  3. c) A continuação de transmissões da Eucaristia, não como “substituição” da comunhão eucarística e comunitária, mas como “extensão” a quem está realmente impedido e como “apelo” aos que, por vários motivos, se foram desabituando da frequência comunitária presencial.

 

O Sacramento do Crisma

A partir do mês de outubro, retomar-se-á a celebração do sacramento do crisma, de acordo com as normas nesse sentido emanadas pela Conferência Episcopal. Tenha-se em conta que o número de participantes na celebração deve ser adequado à capacidade da igreja onde se celebra, dividindo grupos maiores, se tal for necessário, ou mesmo utilizando instalações de igrejas ou salões na vizinhança.

 

Outros sacramentos e as outras formas da presença de Deus na vida

A pandemia trouxe tempos difíceis para todos e pôs em causa o equilíbrio e as energias necessárias para ultrapassar as dificuldades. Para quem recebeu o dom da fé, a participação na vida da comunidade cristã é a forma melhor de viver com serenidade, dedicação e esperança este tempo de crise.

A escuta da Palavra de Deus, pessoalmente, em família e em comunidade é o princípio desse encontro revitalizador. A celebração dos sacramentos, para além da Eucaristia, tem uma grande importância neste aprofundamento das raízes e da razão da fé e no fundamento da alegria e da esperança.

reconciliação e o diálogo que ela comporta, tem aqui um papel importante, particularmente nestes tempos, requerendo a disponibilidade dos sacerdotes e a criação de lugares e tempos adequados a esse encontro com a misericórdia recriadora de Deus.

Como já tenho insistido em anteriores orientações, procure-se, na medida do possível, fazer chegar o conforto da Igreja aos doentes e pessoas isoladas. Identifiquem-se e preparem-se, sempre que possível, pessoas de família ou profissionais dos lares e hospitais, que possam ser portadores da Eucaristia e da solidariedade da comunidade cristã.

 

A Catequese

Apesar das dificuldades comuns e da especificidade de cada paróquia, não podemos desistir de ajudar as nossas crianças e jovens a crescerem na fé e a participarem na vida das comunidades, tendo bem presente a necessidade de não colocar em risco a saúde de ninguém.

Temos um instrumento muito válido para análise e programação destas atividades, preparado pelo Departamento de Catequese do Secretariado Nacional de Educação Cristã – Orientações para catequese em tempos de pandemia – que pode ser usado como ponto de partida para a programação do ano neste campo.

Para além de acentuar o papel dos pais e de todo o ambiente familiar, uma das sugestões que estão a ser adotadas em muitos lados é o da programação mista, incluindo atividades presenciais e a utilização de meios digitais. Neste último caso, tenha-se, porém, cuidado de ir ao encontro das crianças e jovens que não disponham de tais meios.

Sempre que possível, é bom que a catequese esteja ligada e sirva de incentivo à participação na liturgia e na partilha com quem precisa, segundo as possibilidades e organização de cada paróquia.

 

Adolescentes e Jovens

Os adolescentes e jovens têm sido destinatários preferenciais da ação pastoral diocesana nos dois últimos anos pastorais, numa perspetiva que se alarga até à realização das Jornadas Mundiais da Juventude, entretanto adiadas para 2023. O ritmo dos programas teve de ser muito alterado e o Departamento da Juventude está a programar o ano tendo em conta as condições em que nos encontramos, para concretizar os objetivos que estão propostos, com recurso a iniciativas presenciais e de caráter digital.

Para já, continuam suspensas as visitas pastorais às paróquias, que estavam orientadas particularmente para os jovens. Se for possível, procuraremos, pelo menos, concluir a visita à Vigararia do Montijo, interrompida com o começo do confinamento.

Acompanharemos especialmente a caminhada espiritual comum que está a ser proposta a toda a Igreja, estando a nossa Diocese, juntamente com a de Santarém, a partilhar com o Patriarcado de Lisboa, a preparação da JMJ 2023.

 

Próximos de quem está em necessidade

Todos temos consciência de como a pandemia veio agravar a situação económica de todos os países e famílias, com especial gravidade para quem já estava fragilizado. As nossas comunidades têm estado atentas às crescentes e prementes dificuldades num notável esforço de pessoas, organização e meios em favor de quem precisa. As próprias paróquias sentiram também a falta de recursos para manter a sua vida e missão.

Nesta situação, deve estar bem presente em cada um de nós, o imperativo de Jesus aos discípulos perante a multidão faminta: “Dai-lhes vós de comer!” (Mc 6,37). Segundo as previsões, a precariedade económica vai agravar-se. É importante que na mesma medida, cresçam igualmente a generosidade e a capacidade de atender a quem precisa. O amor ativo e solidário, indo ao encontro dos que se encontram na solidão e na necessidade é um sinal concreto da presença do Evangelho no mundo. Por outro lado, contribuir para o sustento da vida e das atividades pastorais e missionárias da própria Igreja, a nível paroquial, diocesano e universal, faz parte do compromisso de cada cristão.

3. A comunhão Diocesana

Nos próximos meses, as iniciativas previstas a nível diocesano serão adaptadas ao evoluir da situação, que se apresenta ainda difícil de prever, utilizando, conforme as circunstâncias, uma forma digital, ou então presencial, em locais adequados ao número dos participantes. Serão deste modo o Colégio de Consultores e os Conselhos Presbiteral e de Vigários, bem como as reuniões de Vigararia. As reuniões gerais de Clero – plenárias, de reflexão e de formação – estão a ser estudadas de acordo com as características de cada uma.

Para o bispo e os sacerdotes, este tempo constitui um desafio adicional que requer dedicação e responsabilidade, prudência e ousadia pastoral. São atitudes complementares da consagração a Deus e do amor-serviço que carateriza a nossa missão. Tendo de contatar com muitas pessoas, a adoção de comportamentos responsáveis de contenção torna-se necessária para que evitemos ser transmissores e multiplicadores de infeção. O discernimento das situações e das atitudes a adotar pede uma atitude de fé alimentada no contato com Deus, mas igualmente na comunhão e colaboração com o bispo e os irmãos no ministério, bem como o diálogo com a própria comunidade, especialmente os responsáveis pelos diversos setores.

Neste contexto, as vigararias devem ter um papel integrador de vivência eclesial, permitindo uma dimensão razoável de proximidade, através de encontros presenciais ou por via digital, não apenas entre os padres e diáconos, mas igualmente entre responsáveis da catequese, dos jovens e dos diversos setores de atividade e dos movimentos.

Que o Espírito do Senhor acompanhe e faça frutificar o esforço, a corresponsabilidade e a participação de todos na vida e na missão da nossa Igreja de Setúbal. A Senhora da Graça, nossa Padroeira, nos guie com o seu exemplo, para que possamos sair desta crise mais atentos à voz de Deus, mais unidos nas nossas comunidades, vigararias e Diocese e mais capazes e organizados para responder aos desafios destes tempos, solidários com quem precisa e dando testemunho credível do Evangelho.

 

+ José Ornelas Carvalho

Bispo de Setúbal