A festa do Natal exprime sempre um desejo de cultivar e cuidar das relações, dos amigos, dos conhecidos, dos próprios ambientes onde nos reunimos: as casas, as igrejas, as praças, as cidades. O objetivo é preparar bem a casa ou o lugar, para acolher e celebrar juntos esta quadra, que assume um significado fundamental no decurso do ano. Não se trata apenas de uma questão tradicional ou cultural, mas de um traço original e essencial do Natal.

No Natal original, Maria e José estavam a preparar o nascimento do filho, Jesus, com todo o cuidado e esperança, quando foram surpreendidos por um decreto imperial que impunha importantes contrariedades ao que deveria ser o normal desenvolvimento do primeiro parto da jovem mãe. Tinham de viajar para Belém, longe de casa, por mandato imperial, para um recenseamento nada simpático, em condições bem desapropriadas para a condição da mãe e para o Menino prestes a vir ao mundo.

Mas um parto e um nascimento, não se adiam para quando houver melhores condições. Há é que procurar a melhor forma de realizar esta festa da vida, dentro de cada situação concreta. E, então, aquilo que parecia uma sombria contrariedade e mau presságio, revela-se fonte de luz e motivo de nova esperança para o casal, o seu bebé e para outros inesperados hóspedes, de perto e de longe.

O Filho de Deus, o Senhor do universo, não entra solenemente no mundo rodeado das fanfarras, adereços e atitudes dos poderosos da terra, mas inicia a sua presença como criança que precisa de ser cuidada, para subsistir. O Cuidador da humanidade começa por propor-se como Menino frágil, necessitado do carinho e do cuidado daqueles de quem vem em auxílio. Foi assim que Maria e José, os pastores, os magos (a humanidade) acolheram Jesus. Cuidando da fragilidade, cuida-se do futuro, cuida-se do mundo, cuida-se de Deus, tornando possível que Ele seja Emanuel, Deus-connosco.

Esta é a primeira grande evidência do Natal, que ecoa nos cânticos, e é suposto espelhar-se nas luzes e presentes, nas festas e celebrações religiosas com que acolhemos aqueles que amamos, atualizando e perpetuando esta presença constantemente transformadora de Deus na humanidade frágil, mas capaz de acolher a vida e a esperança.

Cuidar – cuidar-se e cuidar uns dos outros – é o verbo que se tem escutado constantemente neste ano marcado pela pandemia: desde o cuidar do ambiente familiar, do relacionamento social, de trabalho e de estudo, ao cuidado dos mais frágeis, nos lares de idosos, hospitais e “cuidados intensivos”, até ao cuidado do planeta maravilhoso, mas frágil, em que vivemos.

Damo-nos conta de que, quanto mais vulneráveis somos, quanto mais difícil é a crise em que nos encontramos, mais falta faz acolher, cuidar, acarinhar, para que o frágil ganhe forças, o isolado tenha amigos, o deprimido se levante com esperança e os que passaram pela morte vejam a luz sem ocaso do amor e do poder de Deus, que se faz débil criança nos natais do nosso mundo em pandemia.

Se queremos que o projeto/sonho de Deus para o mundo se realize, temos de cuidar dele com o amor e a constância dos pais que acarinham o seu bebé, que Maria e José tomaram Jesus nos seus braços. Sem esse carinho solícito e determinado, a vida não é viável; a paz que os anjos anunciam não chega ao coração dos homens e o mundo não se transforma na “casa comum da humanidade”, que alberga cada um de nós.

Por isso, bem hajam todos os que fazem Natal deste modo: na alegria responsável das suas famílias; na partilha para que a ninguém falte um sinal de alegria e de festa; no serviço samaritano dos hospitais, lares e serviços à comunidade; na tenacidade dos pais que lutam e emigram como Maria e José, para fugir a perseguições e guerras e para encontrar futuro para eles e para os filhos; na solidariedade dos que os acolhem e amparam, acendendo luzes de esperança de futuro num mundo mais humano, fraterno e capaz de cuidar de todos.

Acolhamos no coração
o Menino frágil de Belém,
incapaz de mandar e de impor,
que pede só cuidado e carinho,
para crescer e viver entre nós:
Emmanuel, Deus connosco,
Senhor-Servo de Mundo Novo.
Cuidemos uns dos outros,
para que haja luz de Natal,
e ninguém fique para trás,
nas trevas e crises do mundo
e a todos chegue anúncio:
Paz na Terra!
Sois todos irmãos e irmãs!
Deus, a todos vos ama!

Setúbal, 17 de dezembro de 2020

+ D. José Ornelas, Bispo de Setúbal