Perante a alarmante situação pandémica que o país atravessa, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) viu-se no dever de suspender temporariamente as celebrações da Eucaristia com a presença da comunidade. Esta decisão, que já vinha a ser ponderada há algum tempo, acabou por ser adotada com rapidez, em paralelo com as novas medidas de contenção decretadas pelo Governo, a fim de evitar que mais um fim de semana com o atual quadro de relacionamento social conduzisse a um ulterior acréscimo de novos contágios, internamentos e mortes. A ameaça de colapso do sistema de saúde, apesar dos heroicos esforços dos que nele trabalham, é uma ameaça dramática para toda a sociedade.

Embora com muita pena e ponderação, esta foi uma decisão tomada como serviço à vida, o primeiro dom que recebemos; uma vida que começa nesta terra que se alarga para o mundo imortal de Deus. Por isso, suspender provisoriamente a participação da comunidade na Eucaristia, afigura-se uma necessidade, neste momento, mas não significa, de modo nenhum, uma redução da sua necessidade e centralidade para a vida da Igreja. Há, porém, que encontrar outros meios que, se não substituem esta celebração, podem alimentar a fé e dar força à vida, até que seja possível voltar a participar nela de forma presencial.

Não se trata de fechar à chave as igrejas. É importante que fiquem abertas, por algum período diário, de modo que, no respeito pelas normas de confinamento, possam ser locais de oração individual ou de família, de contato com o pároco, de reconciliação e de partilha.

Os sacerdotes procurem celebrar a Eucaristia por todo o povo, acompanhados por um restrito número de pessoas, para o serviço do altar, as leituras e o canto (se houver), mantendo as portas da igreja fechadas, como se fez no passado. Se for possível, faça-se a transmissão pelos meios digitais, de modo que, das suas casas, as famílias possam estar em comunhão com a comunidade; perante Deus, não há distâncias que separem ou excluam.

As igrejas e as paróquias, sejam centros de exercício da caridade e partilha de atenção e de bens com os mais atingidos pelas consequências da pandemia. Tenha-se particular atenção a quem vive sozinho, aos desempregados e aos imigrantes, para que ninguém fique excluído do necessário para a vida, nestes tempos desafiadores. Para além dos necessários bens de consumo, o telefone e outros meios de comunicação podem ser preciosos no acompanhamento e apoio, para quem vive isolado e em dificuldade.

Este é um tempo propício para desenvolver a Igreja Doméstica, local de oração e escuta da Palavra de Deus em Família. A oração em família e a leitura da Palavra de Deus são o melhor modo de crescer na unidade e a melhor catequese para os mais novos. Se assim for, as famílias e as comunidades sairão da pandemia mais fortes e unidas.

Algumas paróquias já estão a utilizar os meios digitais para a catequese. É claro que estes meios não podem substituir a presença efetiva no crescimento catequético da fé, mas, neste momento, constituem uma ajuda preciosa.

É preciso reativar igualmente estes meios para a dinâmica dos grupos paroquiais e diocesanos bem como dos movimentos. A fé e o encontro que ela gera – se bem que neste momento possa ser digital – são partes importantes da nossa vida, que não podemos deixar confinar. Estes momentos requerem disponibilidade, esforço e criatividade. Mas tenhamos em conta que o esforço que agora fazemos, terá uma importância grande para nós próprios, para aqueles com quem partilhamos a vida e a fé e para toda a Igreja.

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Para concluir e para dar fundamento à esperança na superação da pandemia e na edificação de uma Igreja mais aberta a Deus, mais fraterna e participativa na sua vida e mais empenhada na missão, deixo-vos um convite e um pedido.

Convido-vos para um conjunto de oito ENCONTROS COM JOÃO, isto é, com o Evangelho de São João. Em tempos de crise, é importante encontrar o terreno sólido dos fundamentos e das razões de ser e de viver. João é um Evangelho precioso para esse encontro. Aliás, é o livro do encontro de Jesus com a humanidade, contado a partir dos Seus encontros com pessoas concretas: dois jovens discípulos de João Batista à procura de sentido de vida e de caminho; o ancião Nicodemos, amadurecido na tradição do seu povo e que deve aprender a renascer do alto; uma estrangeira do rival território de Samaria, convidada a adorar a Deus em espírito e verdade; o defunto amigo Lázaro e a sua família, chamados a abrir-se à Vida sem limite… entre outros, para os quais o encontro com Cristo mudou radicalmente a vida.

Os encontros terão lugar nas plataformas digitais. As indicações estarão ao dispor nos canais informativos da Diocese e nas paróquias. São todos bem-vindos, nas próprias casas, por via digital, de 4 de fevereiro a 25 de março, às 21:00h de quinta-feira.

Finalmente, peço-vos que sejamos portadores de bem e nunca de contágios e de mal e que rezemos todos os dias ao Senhor – pessoalmente, em família e em comunidade – para que Ele afaste de nós este flagelo que aflige toda a humanidade. Rezando, nós assumimos as atitudes mais importantes e eficazes da vida:

  • Reconhecemos, com gratidão e confiança, que Deus é Pai Bom e Poderoso, fonte da vida, da felicidade, do futuro;
  • unimo-nos à Sua Vontade (projeto) de nos libertar, conduzir e salvar, mesmo nas situações mais dramáticas do sofrimento e da morte;
  • deixamo-nos iluminar pela luz do Seu Espírito, para identificar e colaborar ativamente na realização dessa vontade e na superação das dificuldades e crises;
  • Assumimos a disponibilidade de Maria: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim a tua vontade”; e a atitude de Jesus: “Eu venho para realizar a tua vontade”, que são fonte de alegria agradecida, de tenacidade criativa e de abandono confiante no poder misericordioso de Deus.

Rezemos, pois, uns pelos outros. Rezemos pelos que sofrem e perecem vítimas desta crise, pelas suas famílias e pelos que deles cuidam incansavelmente. Rezemos juntos para que o Senhor nos liberte desta pandemia e nos dê a luz e a força do Seu Espírito para construirmos uma Igreja mais unida e participativa e um mundo mais justo, solidário e em paz.

+ José Ornelas Carvalho, Bispo de Setúbal