Reflexão do Padre António Sílvio Couto

À luz dos textos bíblicos das manifestações d’O Ressuscitado, que lemos e meditamos nesta oitava da Páscoa, sinto, hoje, vergonha pela falta de ousadia e não menor complexidade por fazer parte – mesmo como padre – de uma época onde os cristãos quase-hibernaram e se esconderam na hora de darem testemunho.

Atendendo à já décima-quarta declaração do ‘estado de emergência’ e ainda no rescaldo do segundo momento geral de confinamento…mesmo que à espera de novos recaimentos, sinto-me desafiado a colocar alguns pontos de reflexão a, nós claramente, menos bons cristãos neste tempo de crise e de provocação. Por uma questão metodológica vou seguir as palavras que nos aparecem nos relatos da ressurreição…em ritmo litúrgico.

1. ‘Não tenhais medo’ (Mt 28,5), Ao vermos o recurso, por antecipação algo esquisita, dos nossos responsáveis eclesiais a fugirem da dificuldade da propagação do vírus, no contexto dos templos, questiono: será que a prudência agora se tornou numa nova forma de submissa cobardia?

2. ‘Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai’ (Jo 20, 17). Ao sermos mais incentivados à resignação negativa do que a estarmos preparados para alguma resistência às leis contra a fé (cf. artigo 21.º da Constituição da República Portuguesa, sobre o direito de resistência), pergunto se a presunção do medo não tomou o lugar do ardor da evangelização e do martírio cristão?

3. Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso’ (Lc 24, 29). Ao vermos a deserção de tantos dos cristãos antes ‘praticantes’, como que assumo a inquietação duma pergunta atroz, neste momento de quase-colapso: por que fugiram os que antes ocupavam os lugares na igreja, foi porque não tinham razões de celebrar ou porque eram espetadores de cerimónias sem nexo?

4. Abriu-lhes, então, o entendimento para compreenderem as Escrituras’ (Lc 24, 45). Na constatação de tantos anos de ‘catequese’ – mais escolarizada do que querigmática – e ao vemos que, na hora da dificuldade, uma boa parte desapareceu, questiono se não devemos mudar de método e de sistema, dando mais lugar e significado à presença e à participação da família? Depois dum certo ritualismo, seremos inovadores na aprendizagem da Palavra de Deus?

5. Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar’ (Jo 21,6). Com alguma tristeza vemos crescer o desânimo entre todos – hierarquia, religiosos e leigos – não se vislumbrando réstias de esperança. Perpassa-me pela mente e, sobretudo, pelo coração alguma inquietude sobre o futuro. Até onde irá a acomodação? Seremos capazes de aprender com humildade nesta etapa de humilhação?

6. ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Perante as atitudes de encolhimento de tantos/as, torna-se algo complicado destoar da normalidade medíocre. Até onde irá a religião de sofá, aliada às pantufas de conveniência? Teremos ainda quem olhe mais para os outros e menos para si? Haverá coragem de sair do ‘culto virtual’ para enfrentar o incómodo da vivência comunitária?

7. ‘Tomé, um dos Doze, não estava com eles quando veio Jesus’ (Jo 20,24). Não basta dizer, é preciso testemunhar. Com tanta gente ausente, torna-se complicado reunir as condições mínimas e suficientes para termos uma Igreja viva, atuante e interpelativa. Qual será o testemunho de compromisso que vamos passar às gerações vindouras?

Não quis dar lições. Somente exprimi inquietações… Será que ainda se lê e alguém escuta?

Padre António Sílvio Couto, Pároco da Moita